II Festival de Poesia da Cidade de São Paulo - Poemas inscritos

Malabares de farol

TÍTULO DO POEMA: Malabares de farol
AUTOR DO POEMA: Nathan Diesendruck
INTÉRPRETE: Nathan Diesendruck

 

 

 

 

 

Sete horas da manhã, dia normal, um garoto comum vai para escola.

Sete horas da manhã, mundo real, estoura o rojão e grita: ´´chegou a droga´´!

No dia normal, sai vai jogar bola, estuda, canta e joga videogame.

No mundo real, vai pedir esmola, Ah! Há quantos dias sem comer.

Vendendo pano de prato, o que tem de errado?

Polícia senta mão, neguinho será negão.

Malabares de farol, fecham-se as janelas,

Tem medo da criança, criança tem medo delas.

Chegando em casa, todo zuado. Estado? Completamente revoltado.

Ligou a tevê para dar uma relaxada, viu um tênis, um brinquedo, por que ele não tem nada?

Ainda de quebra assistiu ao horário eleitoral, o político promete, passa mal!

Na manhã seguinte, algo diferente, na quebrada tinha um cara, tratado que nem gente!

Com o tênis da moda, com a moto daora, parecia até gringo, vindo de fora.

Porra mano, qual é o segredo? Aonde arranjo esse tal de dinheiro?

Disseram que bastava estudar e trabalhar, para igreja todo mês, o dízimo doar.

Seguiu essa linha até os dezesseis anos, não tinha vaga em escola, mas ele sempre trampando.

Ademais, o dinheiro nunca vinha, sua família passa fome, moto ele não tinha.

Até que entendeu, o que devia fazer. Liberalismo selvagem? Matar ou morrer!

Tomou coragem, virou pro bandidão, será que você me arranja uma arma irmão?

Também quero tentar, ter um pouquinho, nem faz diferença, o celular pro rico.

Quase 4 da manhã, Vila Madalena, ficou rodando o bairro, como que não quer problema.

Na saída de um bar viu a oportunidade, um marmanjo sozinho, desatento à vontade.

Não deu brecha abordou o playboy, tanta adrenalina, seu coração dói.

Apontou a arma, passa o celular! Ele estava nervoso, tremia sem parar.

Dedo escorregou, apertou o gatilho, silêncio a sua volta, eco, zumbido.

Sem reação, em flagrante detido, chorou, sofreu, voltou a ser menino.

A mídia gritou abaixo a maioridade, não podemos tolerar tal barbaridade!

Na Febem 100% rechaçado, único assassino em meio a tantos ignorados.

Ladrão de toca fita, assaltante com faca, enfim, crianças abandonadas.

Nunca viram escola, oportunidade, sempre submissas a cruel realidade.

Largados pelo Estado até serem pedras no sapato, não ligam para o problema, usam o remédio errado.

Não ligaram para o moleque, quando não teve escola, não ligaram para o moleque, saúde de bosta,

Não ligaram para o moleque, do mundo real, querem tranca-lo para viverem um falso mundo ideal!

Nesse seu mundo ideal talvez até fosse justo, mas no mundo real é um total absurdo!

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