II Festival de Poesia da Cidade de São Paulo - Poemas inscritos

Gerações de barulho

TÍTULO DO POEMA: Gerações de barulho
AUTOR DO POEMA: Luz Ribeiro
INTÉRPRETE: Luz Ribeiro

 

 

 

 

muitos se calaram

ao ver a Cláudia ferreira silva

ser arrastada pela viatura

e eu me pergunto

como é que a gente atura e atura e atura e atura...

atura mas não aceita

reconhecer primeiro o silêncio

do ator vinicius romão

que apareceu em telejornal do horário nobre

noticiando um crime, que ele não cometeu

e o amarildo, sumiu?

caso tão abafado

que até hoje uma mão pressiona nossos lábios

e com a outra faz: psiu

aqui cientista não pode ser preto

ou será barrado na porta do hotel

colocaram holofotes no caso

mas eu conheço mais de 1.000 fabrícios

que engolem o choro todos os dias

o ultimo som que  o menino eduardo emitiu

foi o do seu corpo caindo no chão

na mesma semana que bradavam a redução  

fernando tinha as duas mãos algemadas

não pode nem usa-las próximas a boca

e quem sabe ampliar seu gritar

podia ser um coro, um coral

a noticia impressa não cita os nomes

ignora os coadjuvantes

emudece os municípios

são somente 18 corpos calados

o opressor é a tecla mute do oprimido

eu cresci em um lugar onde a voz são as dos tiros

dos tiras que atira e tira possibilidades

de uma gente que nasceu com pouca oportunidade

a gente ouve que as paredes tem ouvidos

e aprende cada vez mais cedo

a se policiar, e eles, quem policia?

nos pedem um minuto de silêncio

pela moça violentada na cabine do metrô

pela calça da jornalista suja da porra toda

pelos corpos que sentiram nervos enrijecerem

sem prévio consentimento

um minuto de silêncio

pela banana jogada na teia

do macaco aranha

queremos sair das paginas policiais

mas continuar nos cadernos de esporte

lazer e cultura.

travam a língua dos pretos presos

fomos obrigados a tramar o futuro sussurrando

querem fazer nossa marcha inaudível

e de tanto gritar não nos ouvem falar:

somos a soma

somos mulheres na rua

somos cotas pretas

somos a bolsa que sua família  

classe média odeia

estamos acima da média

marchamos lado a lado

de short curto

com cabelo black

nos cargos públicos

exigindo nossa parte

da população somos mais que a metade

a cada dia redescobrimos o nosso orgulho

empunhamos os braços e anunciamos

já fizemos muitos minutos de silêncio

agora serão gerações e gerações de barulho.

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