II Festival de Poesia da Cidade de São Paulo - Poemas inscritos

Zé da Bronca

TÍTULO DO POEMA: Zé da Bronca
AUTOR DO POEMA: Elio Camalle
INTÉRPRETE: Elio Camalle

 

 

 

 

Zé da bronca nasceu troncho lá no sertão de Irecê

Filho do dono do rancho com a negra escrava Arcanjo

Que não viu José nascer.

Atado ao ferro da corrente no oficio de plantar e de colher

Nem sabia que era gente até que uma dor de dente

Veio com o cabra ter.

Seu senhor, velho descrente, disse que aquilo era um trote

E o chicote mandou buscar

Zé, cego de dor e sem norte, deu-lhe um golpe no cangote

Que fez o velho tombar.

Fugiu lá pro meio da mata e lá fez medo, fez até fera correr

E disse:

---- Hoje esse nó desata. Nem que chova chuva de faca

Escravo eu não volto a ser.

Cana Brava do Gonçalo é quem conta a historia desse réu

O tal mulato vassalo que subiu lá pra São Paulo

Pra fazer arranha céu.

De fato a cidade era um paraíso com cachaça, fumo e samba a granel

Zé subiu lá no alto do edifício e de lá deu um grito de hospício:

--- Hoje sou eu o coronel!

É verdade que obrigou-se a dormir em cortiço sentindo frio e solidão

Dai rogou ao senhor “Padim Ciço” que lhe arranjasse um compromisso

Pra dividir agua e pão.

Mas a vida ali tudo cobra, até mesmo o cu da gia.

Zé foi contar ao dono da obra que ainda tinha saúde de sobra

Pra também fazer rodovia.

No percurso dessa labuta, Zé começou a enxergar o que antes não via

E viu que o dono daquela muvuca comia na mesma cumbuca

Que os brancos lá da antiga Bahia.

Dai houve um forte trovão no ar e era uma voz que dizia:

---- Oh! Raça que faz arapuca, que mexe e dá no na cuca, gente seu deus, nem valia!

Nem bem chegou ao escritório, disse claro, em bom tom:

--- Eu vim aqui discutir salario. Manda chamar o senhor Osorio e diz que eu não tô muito bom!

Foi falando assim e tropeçou numa corrente, essas correntes que separam escritório do pião.

Era de cor diferente, é verdade, mas era a mesma corrente do tempo da escravidão.

Zé da Bronca, homem valente, não temia nem mesmo vulcão,

Sentiu o gosto do sangue quente, uma espécie de agua ardente que lhe ardeu no coração.

Dai pensou no filho mais moço, num outro que ainda era embrião e disse:

--- Eu faço um alvoroço, hein! Eu juro por “esses osso” que quando eu juro eu não juro em vão.

Foi falando e dando uma capoeira que mandou a segurança direto pro Beleléu.

A justiça Zé tirou da algibeira.

Foi exatamente isso que fez o dono da empreiteira falar lá com o dono do céu.

Zé assumiu toda a bronca sozinho, muito antes de virar uma linda canção.

Zé da Bronca, o negro que virou onça!

E ainda existe gente sonsa que acredita que essa historia, é historia de ficção.

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