II Festival de Poesia da Cidade de São Paulo - Poemas inscritos

Poema do deus Dioniso

TÍTULO DO POEMA: Poema do deus Dioniso
AUTOR DO POEMA: Júlia Ciasca Brandão
INTÉRPRETE: Júlia Ciasca Brandão

 

 

 

 

Num meio-dia de fim de Primavera 

Tive um sonho como uma fotografia. 

Vi Dioniso descer a Tebas. 

 

Veio pela encosta de um monte 

Tornado menino ou menina 

A dançar e a rolar-se pela erva 

 

E a rir de modo a ouvir-se de longe. 

Tinha fugido do Olimpo. 

Era nosso demais para fingir-se de deus. 

 

Lá em cima, tudo era falso, tudo em desacordo 

Com flores e árvores e pedras. 

No Olimpo, tinha de estar sempre sério 

 

E de vez em quando, tinha de fugir dos titãs, 

criaturas feias, que odiavam 

as belezas e as artes que Dioniso espalhava no mundo. 

 

Seu pai era Zeus, casado com Hera, 

a deusa das relações lícitas, 

que não o deixava ser pai dele. 

 

E sua mãe, a princesa Sêmele, 

não tinha vivido depois de o ter. 

para sobreviver a tradicional família 

 

a princesa viva Zeus queimou 

E a criança inacabada, bastarda e dúbia 

na coxa o deus costurou. 

 

Quando nasceu da coxa do pai, 

ninguém sabia se a criança era menino ou menina 

ou mais humana que divina 

 

E foi o Hermes, o deus dos herméticos segredos, 

que levou Dioniso para uma alta montanha, chamada Nisa, 

onde foi criado pelos sátiros, gregos aedos 

 

e pelas gentis moças da natureza, as ninfas 

e a criança que ninguém sabia se era menino ou menina 

ou mais humana que divina cresceria artista. 

 

Um dia, os titãs encontraram Dioniso e o capturaram 

Arrancaram todos os seus membros como se fosse um boneco. 

E todas as partes, cheios de ódio, eles queimaram 

 

Por sorte, Atena, a deusa vendada, tudo viu 

E conseguiu salvar de Dioniso o coração. 

A deusa da justiça as criaturas feias a cinzas reduziu 

 

E das cinzas titânicas e dionisíacas em união 

Nasceu a humanidade, nascemos nós, condenados para sempre

à ambiguidade da beleza e da feiura. 

 

Depois, Atena enterrou o coração num jardim 

E como uma semente, da terra ele renasceu 

e floriu. 

 

No Olimpo, queriam que ele que nascera da coxa de um pai 

que não podia ser pai dele 

e depois renascera de seu próprio coração 

 

e que nunca tivera uma mãe para amar com respeito 

Pregasse a integridade 

das coisas que não são íntegras! 

 

Um dia, Zeus estava a discutir com Hera, 

Que o acusava de ter se transformado em pingo d´água para amar outra, 

ele foi à caixa dos milagres e roubou três. 

 

Com o primeiro, fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido. 

Com o segundo criou-se eternamente humano. 

e com o terceiro, fez com que todos o homem que nele botasse o olho 

 

visse seu próprio reflexo, como se Dioniso fosse espelho. 

Depois, fugiu para o sol 

e desceu no primeiro raio que apanhou. 

 

Passou pelos campos preciosos da Lídia e da Frígia, 

percorreu os altiplanos da Pérsia, a Arábia feliz 

e a Ásia que orla o mar salgado. 

 

Só depois, chegou a Tebas 

a dançar e a bater no solo com o tirso, 

e a fundar seus mistérios. 

 

A mim ensinou-me tudo. 

Ensinou-me a olhar para mim mesmo 

Com muita calma, aponta-me todas as coisas que há na minha alma. 

 

Mostra-me como sou engraçado 

quando me olho no espelho 

E olho devagar para mim mesmo. 

 

Diz-me muito mal de Penteu 

Diz que o rei de Tebas é um homem estúpido e doente 

Sempre a escarrar para o chão e a dizer indecências. 

Diz que é amargo assim, porque é partido ao meio, a dor precede seu nome. 

 

O rei de Tebas também diz muito mal de Dioniso 

Quer jogá-lo num calabouço, 

arrancar-lhe a cabeça do tronco 

 

Penteu não sabe que olhar para Dioniso 

é como olhar-se a si mesmo no espelho. 

Não sabe que nós não vemos o que vemos 

 

Nós vemos o que somos 

e só veem as belezas do mundo 

aqueles que tem belezas dentro de si. 

 

E porque Penteu não aceitou esses mistérios báquico, 

e nem ao menos tentou provar do doce sumo da vinha 

Dioniso o separou dele mesmo. 

 

Hoje, vaga no submundo 

a segurar a própria cabeça 

e a perguntar se haveria sofrimento maior do que o seu. 

 

Dioniso mora comigo na minha casa 

Ele é o meu espelho, 

o deus que faltava. 

 

Ele é o humano que é natural. 

Ele é o divino que sorri e que brinca. 

E Dioniso, tão humano que é divino, 

 

É esta minha quotidiana vida de poeta 

E é por que ele anda sempre comigo 

Que eu sou poeta sempre. 

 

O deus Dioniso que habita onde vivo, 

Dá-me uma mão a mim e outra a tudo o que eu sou 

E assim vamos todos os nossos eus pelo caminho que houver 

 

Saltando e cantando e rindo 

E gozando o nosso segredo comum que é saber por toda a parte 

Que não somos inteiros e que tudo vale a pena. 

 

Ao cair da noite, encontramos Cadmo, o fundador de Tebas, 

e Tirésias, o profeta cego, 

e passamos a noite toda a dançar 

 

e a agitar nossos brancos cabelos 

para na velhice, a idade esquecer. 

Depois ele nos conta histórias das coisas só dos deuses. 

 

E eu sorrio, porque tudo é incrível. 

Rio dos deuses e dos semi-deuses. 

E tenho pena de ouvir falar dos titãs e de Hera. 

 

Porque sei que tudo isso falta àquela verdade 

que nasce do doce sumo da vinha, do delírio do êxtase e da arte 

da máscara, da dança e das falhas da alma minha 

 

cheia dos traumas e dos estranhos abismos, e dos diversos eus 

que em mim tenho. Dioniso os mostra para mim no espelho 

e me ensina a conhecer-me a mim mesmo. 

 

Esta é a história do deus Dioniso 

Por que razão que se perceba não há de ser ela mais verdadeira 

Que tudo quanto a mitologia pensa e tudo quanto as tragédias ensinam? 

 

 

 

 

 

 
 
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