II Festival de Poesia da Cidade de São Paulo - Poemas inscritos

P(r)o(bl)ema do metrô²

TÍTULO DO POEMA: P(r)o(bl)ema do metrô²
AUTOR DO POEMA: Thiago Peixoto
INTÉRPRETE:  Thiago Peixoto

 

 

 

 

Fico intrigado
vendo nós todos aqui apertados.
Juntos e
se pa (er) ra dos.

Uns felizes, sentados, 
outros revoltados por estarem no meio de um vagão cheio, 
a caminho de um dia mais saturado ainda.

Xingamos o irmão do lado, 
“puta maluco folgado!”
que consegue testar nossa fé
com um simples pisão no pé. 
“Cada um no seu quadrado!”

Prensados nesse latão,
somos pressa em conserva.
Conversar não compensa,
dispensa-se interação.

O medo de ser assaltado ofusca nossa percepção.

Portamos um olhar assustado,
cabreiro, o trajeto inteiro hesitante,
ligeiro com a carteira e os documentos,
movimentos constantes para antecipar contratempos.

Vigiamos quem está ao lado,
no mesmo transporte 
público, pago, superfaturado e aquém,
e não damos que somos roubados
pelo governador do Estado,
que está do lado de quem?

Alguém já o viu entre nós?

Ele nunca pisou em nenhum desses vagões, 
não é dos que andam no trilho.
Colheu grandes milhos em ilícitas ações
e calou menções esfriando a tela quente,
onde consumimos padrões decadentes,
que fazem com a gente desconfie da gente.

Assim é diariamente,
a vida é um problema corrente.
Pensamos que nos afastamos,
pois São Paulo é um continente,
mas nunca se está o distante o bastante
no instante do vigente acidente.

Então, a todo momento,
antenas atentas ao tempo
ativam um dispositivo cognitivo 
que inventa alternativas para tormentos 
que se apresentam assim:
“Um poste caiu na altura da Cidade Jardim
e o transito já atingiu quem está na M’ Boi Mirim”.

Se percebe, enfim,
que esse negócio de sociedade
era mesmo verdade.
Meu dia influencia no seu,
que interfere no dele, 
que modifica o de alguém
que também pode intervir no meu.

Quase ninguém tá ligado
que estamos interligados.
Muitos estariam desligados até agora
se essa poesia estivesse lá fora.
Mas por alguma razão
ela escolheu esse vagão para entrar 
e se apresentar através dessa voz.

Não ignore essa questão:
Eles querem que nós cegos, 
surdos e mudos, 
em mundos escudos, 
fechados em nossos universos pessoais
sigamos sonhando com a liberdade
nos preceitos neoliberais 
de não nos misturar aos demais.

Na moral,
somos, assim, tão superficiais?
Ou precisamos de mais
que um acento preferencial, 
em uma fila na marginal?

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