II Festival de Poesia da Cidade de São Paulo - Poemas inscritos

A misteriosa dama

TÍTULO DO POEMA: A misteriosa dama
AUTOR DO POEMA: Edih Longo
INTÉRPRETE:  Edih Longo

 

 

 

 

 

Olhei-a com pavor a princípio.

Aqueles traços marcantes, aqueles olhos frios e penetrantes

me rasgavam como um desafio.

Fui descendo o olhar e seu colo me pareceu um infinito lugar onde se pode acolher,

embora sem muito calor, uma multidão de filhos.

Os seios pontudos e firmes me levaram, ludicamente, a um piquenique no pico do Jaraguá.

Parei o olhar lascivo no seio esquerdo

e lá estava o Masp pulsando como um coração ardente em plena Avenida.

Quase num torpor alucinógeno, num sonho delirante, percorri seus braços nus

e as veias transparentes me fizeram navegar no Pinheiros e Tietê.

Tentei, honestamente, tentei desviar o olhar daqueles pelos tão íntimos

como uma mata inexplorada,

simbolizando a sua mais sensual maneira de receber seus hóspedes

nas ensolaradas tardes do Ibirapuera.

E ela continuava ali.

Intrigante.

Intrigando-me.

Desviei o olhar, mas no meu pensamento continuei a desnudá-la, tentando entendê-la.

Ela é tão elegante quantos os seus Jardins e ao mesmo tempo

tão simples quanto os casebres de suas Vilas.

Que sensualidade existe em sua boca noturnamente alucinante!

Que vigor existe nas ações dos seus dias!

E, depois de muito tentar, ela finalmente cedeu.

Eu a dominei, pois a compreendi:

ela é maternalmente mulher, pois acolhe muitos filhos.

Ela é sedutoramente mulher, pois se dá pra todo mundo.

Ela é misteriosamente mulher, pois se deixa conquistar.

Ela é tão brasileiramente mulher, que somente no seu útero fecundo

poderia acontecer a nossa Independência.

E daqui, do topo deste apartamento onde dividimos nossas horas amantes,

olho-a mais uma vez dormindo com sua respiração calma e profunda

e percebo quanto a amo.

São Paulo, a minha linda e misteriosa dama.

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