II Festival de Poesia da Cidade de São Paulo - Poemas inscritos

Domingo

TÍTULO DO POEMA: Domingo 
AUTOR DO POEMA: Ni Brisante
INTÉRPRETE: Ni Brisante

 

 

 

 

pense

alguém tentando por o cristo redentor (aquele do rio)

dentro da capela cistina.

estar apaixonado é quase assim

esse descabimento.

 

Pense, rapaz

alguém que dormiu por 28 anos ininterruptos.

estar apaixonado é o primeiro som que esse alguém dança

antes de levantar

 

Apaixonar-se 

é tomar orvalho ao meio dia 

quando se tem sede de cachoeira.

 

Pense

Alguém tentando vencer o exército de Napoleão com uma navalha

Acho que estar apaixonado é ser a própria lâmina.

 

Tal qual uma dona de casa

quando acaba o gás

enquanto cozinha o almoço de domingo

e com o apetite aberto

consulta o bolso

onde vazio é costume profundo

tivesse um tição, tacava fogo no inferno

incendiaria o corpo do bombeiro

enfim

eu lhe peço fiado

pra ser feliz

o que me aprisiona?

seu tchau

 

quando você saiu da minha vida

eu não fiquei vazio

não larguei a droga do meu emprego

nem morri

eu fiquei o tempo inteiro com você

- só que do lado de fora

Repare

 

A fotografia não gosta de quem muda.

Ainda q’eu perdesse os 7 quilos

que herdei dos últimos tempos

já não seria eu naquele corpo

se, de algum modo mágico, nossos dedos

pudessem se abraçar novamente

seria aperto

não laços

o desenho que eles formariam.

 

se eu mostrasse os dentes assim ó

igual no retrato

seria só riso

não felicidade

 

Eu estive em silêncio

e no silêncio tinha você

 

aqui o olho é só a superfície do meu coração

mas você não consegue ver, né?

 

meu dente sangra

sem a sua carne

 

E eu lhe quero, bem

mais poética que uma diarreia na noite de núpcias

você trovejou:

eu poderia acabar com você a qualquer hora

mas eu nunca gostei de finais felizes

 

rá.

eu tentando te levar a sério

e você numa crise de riso

nervosa

 

Pra você é piegas

mas tem quem chame de poemas

essas minhas partes íntimas grudadas no papel

 

cem anos de solidão

e nenhuma página virada

 

assim como

para o sutiã teus ombros são cabides

para meus lábios: ex posição;

eram suas

as cópias que amei

 

todas as vezes que multipliquei meu prazer

foi tu

 

silêncio é o segredo

a bolha nasce quando explode

a morte só é um espetáculo atraente

porque acontece apenas uma vez

nem toda cicatriz é marca de luta

nem todo mundo que pede socorro ajuda

nem todo suicídio é em legítima defesa

 

tal qual uma uva

meu derradeiro útero foi esmagado pelos teus pés

a troco de um copo de liberdade, dizem.

 

E eu queria ser o raio

que cai duas vezes

da mesma nuvem

 

ser o assassino

que volta a cena

no filme

 

o erro repetido

duas ou mais vezes

até tornar-se coisa de berro, burro – sei lá

 

queria ser gêmeos, o 14 bis

o retorno de saturno

a própria tecla repeat

 

ser uma onomatopeia

dessas que tocam nas FMs

dia após dia

 

queria ser tudo

capaz de deter o último segundo

da primeira vez

que fomos adeus

para sempre

 

Trocaria a eternidade

por uma vida inteira

e largo meu time

e viro ateu;

e mudo de bicho

no horóscopo chinês;

e aposto toda a minha saúde

que ainda existe esperança

em um travesseiro

de uma meretriz da Sé

 

Não faça mais simpatias

nem use aquele seu vestido de fulô

perto de mim

quando não estiver comigo

 

teu coração é um escudo

em forma de arma

 

todo dia é uma dor

maior

sem suas crises de ciúmes e riso

 

tanto amor no coração

e a gente aqui

assim, ó

domingo

 

não cobrarei fidelidade

carícias loucas nem declarações engenhosas

só fica

 

eu te quero

 

o amor é aquele espaço que existe entre os dedos

é preciso abrir as mãos para compreender

amor não é posse

é pertencer

 

enfim

eu lhe peço fiado

pra ser feliz

tal qual uma dona de casa

quando acaba o gás

enquanto cozinha o almoço de domingo

e com o apetite aberto

consulta o bolso

onde vazio é costume profundo

tivesse um tição, tacava fogo no inferno

incendiaria o corpo do bombeiro

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