II Festival de Poesia da Cidade de São Paulo - Poemas inscritos

Poema mudo

TÍTULO DO POEMA: Poema mudo
AUTOR DO POEMA: Julia Leite
INTÉRPRETE: Julia Leite

 

 

 

 

Verso, voto de silêncio.

[...]

Volto.

Não tô muda.

Mas o mundo me mudou.

Me botaram goela abaixo

Um punhado de fronteiras, faróis vermelhos

E um eterno divórcio com o planeta terra.

[...]

Não tô muda.

Mas preferia ser surda

À ter que ouvir tanta gente barrando,

Berrando “não”,

Por onde o amor transita.

Minhas artérias não filtram

Cor ou gênero:

Meu peito pulsa

É por generosidade.

Charmes alheios sem rodeios, sem rótulos,

Corpos em que bebo a maior fonte de mim

E me derramo.

[...]

Não tô muda.

Só carrego uma rouquidão

Por gritar por dentro

Um monte de silêncio que acumulei.

[...]

Não tô muda.

Os ponteiros violentaram minha língua

Ao dissiparem flores, mulheres

A cada 4 minutos nas estatísticas.

Pisam nos canteiros

E eu já não canto mais.

Minha voz dói.

Em vão não!

Petição política poética

Que eu assino embaixo.

Uni-vos vossos versos, vozes, protestos, projetos.

Não percam o ritmo, a rima,

A oficina de inspiração.

“Poesiem” os muros,

Cartolinas, cabeças vazias,

Corações bestiais

Que carecem de sinais

De libertação.

Muda, eu mudo.

E na mudez, eu abro a boca

Contra as mentes fechadas:

Se poesia é um ato revolucionário

Não limita,

Milita.

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