II Festival de Poesia da Cidade de São Paulo - Poemas inscritos

Sobretudo

TÍTULO DO POEMA: Sobretudo
AUTOR DO POEMA: Ciro Pessoa
INTÉRPRETE: Ciro Pessoa

 

 

 

 

SOBRETUDO

Me sinto farto destes rostos e seus nomes

que sempre esqueço,

desta vida vivida aos trancos,

deste abismo barroco em que tudo se transformou,

meu grande orgulho, minha pequena compaixão,

desta voz interna eternamente a me cobrar atitudes,

destas taças de vinho manchando vestidos de seda,

desta retórica vazia na qual

me escondi sob o nome de poesia,

destes planos feitos de palavras,

destas vozes que ainda ecoam em minha cabeça,

desta tagarelice compulsiva que recusa

tudo que seja silêncio,

destas lojas e suas roupas,

deste passado que me imputaram,

destas estórias que se contam

para encobrir nossos defeitos,

desta psicanálise pública,

de minha pretensa inteligência,

do meu ego por detrás de tudo,

destes rostos e seus nomes,

deste cheiro que exala no fim das festas,

destes objetos que me circundam,

destes carros vermelhos, azuis, amarelos,

destas ruas e suas faixas de pedestres,

desta polícia civil, militar, à paisana,

destes animais trancados em jaulas de zoológicos,

destes padres, bispos, cardeais e papas enrugados,

destes mitos libertários e seus defensores

ordinários,

desta direita, esquerda, centro,

desta esperança de dias melhores,

destas palavras ditas em todas

as línguas ao mesmo tempo,

deste respeito falso e frágil

que cerca as relações humanas,

destes manequins de vitrine, deste eterno jogo

animal da sedução,

deste cubículo fétido onde o amor foi atirado,

desta ignorância desenhada

com réguas e compassos,

desta tecnologia suburbana de foguetes e mísseis,

desta alegria histérica e barulhenta, deste

xamanismo charlatão,

deste inconformismo conformado,

destas fronteiras entre tudo e todos,

deste flerte com a fama,

destas verdades, destas mentiras,

destes vícios mundanos,

destes hábitos inalterados, desta paciência infinita,

destes modelos falidos de comportamento,

desta ética boçalizada, desta falta de vergonha,

deste andar sobre ovos, desta prudência recatada,

destes médicos e seus cadáveres,

destes mortos enfiados em vivos,

deste beco sem saída, deste círculo vicioso,

destes mártires sem sentido,

desta vida que nos foi roubada,

de mim, sim, sobretudo de mim.

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